CASO DA GRECIA – Primeira campanha mundial de crowdfunding com finalidade pública.

CASO DA GRECIA – Primeira campanha mundial de crowdfunding com finalidade pública.

Caros leitores! Gostaria de comentar essa noticia histórica, sob o ponto de vista do uso de financiamento coletivo (crowdfunding) direcionadas ao Poder Publico ou a problemas ligados ao setor publico.

Feliz ou infelizmente, o caso emblemático é a Grécia, já altamente desacreditada pelos credores mundiais e em uma rota de colisão financeira sem precedentes a países da zona do euro. Contudo, a crise mostrou-se o meio a viabilizar uma das campanhas mais históricas, inovadoras e impressionantes até o momento, com a mobilização mundial em torno do caos da crise grega.

Foi lançada no site Indiegogo uma campanha (https://go.indiegogo.com/blog/2015/07/by-the-numbers-the-world-comes-to-greeces-rescue-through-crowdfunding-for-the-price-of-a-feta-salad.html) idealizada por um britânico, buscando financiamento coletivo para ajudar o pagamento da divida grega e socorrer os milhões de gregos que estão vendo suas economias evaporarem dos bancos. A campanha pedia a arrecadação, via doação e mediante recompensas, do valor de EU$ 1,6 bilhão de euros.

A logica da campanha foi bem simples: se pegasse o total da divida, e dividisse pelo total de habitantes da zona do euro, cada um poderia ajudar a resolver o problema grego com apenas EU$ 3,00. Isso mesmo, três euros! O numero de doadores precisaria ser de mais de 500 milhões de pessoas… mas a iniciativa apontou um norte, ate então pouco explorado, e que temos insistido já ha algum tempo, especialmente em nossa obra “Dinheiro da Multidão: burocracia x oportunidades no crowdfunding nacional”.

A campanha já foi finalizada e não foi ativada. Era uma campanha de tudo ou nada, ou seja, apenas seria arrecadado todo o valor para o fundo grego se atingissem o valor total pleiteado. Contudo, apesar de não ter sido ativada, a campanha mostrou que surpreendentes 109.000 (cento e nove mil) doadores acessaram o site e doaram! O volume de financiadores é o maior da historia do financiamento coletivo. A campanha rompeu todos os recordes (valor pleiteado, segmento do projeto, inovação publica, volume de participantes).

O valor arrecadado ao final foi de mais de EU$ 1,9 milhão de euros, uma quantia alta se comparado a media de projetos e mercado de crowd. Ainda mais se tratando de uma questão ligada a uma crise publica.

O idealizador, independente de ter concluído ou não a campanha, alertou para o problema e mostrou que sim, mundo afora existem milhares de pessoas que estão dispostas a financiar questões humanitárias (sim, a crise esta sendo tratada como humanitária!). Um infográfico criado pelo próprio site mostrou que a origem dos valores ao redor do mundo e os povos que mais doaram, impressiona!

Com toda essa movimentação, não poderíamos deixar de assinalar que, para o Poder Publico, trata-se de um instrumento fortíssimo de mobilização social, especialmente em países, estados e municípios em estados críticos financeiros. Instrumentos como este, se bem utilizados, podem transformar de maneira totalmente inovadora, a realidade de povos inteiros.

Apesar do governo grego não atribuir caráter oficial a campanha (já que ela foi iniciada por um estrangeiro), admite-se que o motor que incentivou o envolvimento humanitário na campanha foi exatamente a natureza e forma das recompensas por cada doação. As recompensas, além de baratas, seriam todas enviadas por empresários gregos, ou seja, movimentariam, além de tudo, o comercio grego! E essa vinculação demonstrou ser uma ferramenta fortíssima para motivar financiadores a aderirem a campanhas.

Abaixo, uma pequena analise objetiva e que poderia ser aplicável a projetos de financiamento coletivo para o setor publico em todo o mundo:

a) Simplicidade da campanha e da explicação dos motivos – de forma clara, objetiva, fácil de entender e curta;
b) Indicação clara de que a campanha não tem finalidade lucrativa, mas sim, social;
c) Definição clara e objetiva das recompensas, em um numero suficiente para atender diversos gostos e bolsos;
d) Valores de doação pedidos bem baixos, estruturando-se a campanha para financiamento em massa, não em concentração individual por doação;
e) Sinceridade em informar que a campanha pode não dar certo, mas que todos os esforços serão aplicados para que ela ocorra;
f) Proposta de transparência na demonstração da entrega e transferência dos valores ao povo grego ou a instituições nacionais que administrariam os fundos;
g) Utilização de recompensas produzidas pelo povo grego, ou seja, autenticas. Outro ponto forte foi o envolvimento do empresariado grego;
h) Amplificação mundial da campanha;
i) Gestão de risco e devolução imediata de valores, caso a campanha não se efetivasse.

Como venho dizendo em outras matérias, credibilidade e transparência são as palavras de ordem desse mercado! Imaginem 109.000 pessoas que precisem ser atualizadas, informadas ou reembolsadas em uma campanha desse nível? Imaginem se essa crença, essa identidade com o problema, for simplesmente desrespeitada?

O caso mostra a viabilidade do uso de financiamento coletivo para questões publicas, desde problemas nacionais, estaduais, municipais e ate mesmo da minha rua, do meu condomínio! Afinal, se as pessoas perceberem que os valores serão tratados com respeito e responsabilidade, não terão receio em doar e subsidiar campanhas. Mas elas precisa ser bem sucedidas!

Eu diria, sem medo de errar, que essa campanha tornou-se o maior estudo de caso, até o momento, de projetos de crowdfunding para fins sociais, políticos, humanitários e públicos!

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